O Solar da Raça

Durante séculos Castro Laboreiro foi Concelho com uma única Paróquia, a actual Freguesia de Castro Laboreiro. Com Foral de D. Afonso Henriques permaneceu com Paços do Concelho até 1855. Os seus limites com a Galiza e concelhos/freguesias limítrofes estão inalteráveis.

O seu território corresponde a uma área superior a 90 quilómetros quadrados, que se estende a norte e a nordeste pela serra do Laboreiro, vale do Laboreiro,  e a sul, pelas faldas do nordeste da serra da Peneda.

Com mais de 40 lugares populacionais, alguns deles são os mais altos habitados em Portugal, acima dos 1160 metros.

O espaço geográfico era de extremo isolamento, a maior parte dos lugares só teve estrada no final do século XX. 

No entanto, a região é de uma beleza extraordinária, apresentando vários tipos de paisagens, desde a vegetação rasteira no planalto em plena serra do Laboreiro, até aos densos carvalhais seculares, conservados em vales profundos, rodeados de escarpas e gargantas graníticas, em cotas mais baixas. 

O povo de Castro Laboreiro pratica pelo menos desde a primeira metade do século XVI mudas sazonais de habitação (brandas e inverneiras) de contornos únicos no território nacional. 

A maioria das famílias têm duas casas de habitação em dois lugares diferentes que podem distar entre si vários quilômetros. 

Em Portugal, só existem Inverneiras em Castro Laboreiro. 

As Brandas também são singulares, nada têm em comum com as restantes brandas do território nacional. É a principal casa de família, e ficava deserta 4 a 5 meses por ano.

Os moradores baixam em altitude para passar os meses de inverno. Apagam o fogo numa moradia para o acender na outra. Os vizinhos podem ser diferentes nos dois lugares. Durante o resto do ano havia mudanças mais pequenas, para realizar tarefas agropastoris que podiam englobar toda a família.

A paisagem, a geografia e a história, proporcionaram a herança de um legado patrimonial e cultural dos mais ricos do Portugal rural. Em destaque:

  • Riquíssimo patrimônio imaterial (Usos e costumes, emigração, contrabando, refugiados da guerra civil espanhola, guerrilha antifranquista, volfrâmio, etc);
  • Na serra do Laboreiro (Portugal e Galiza) existe uma das Necrópoles Megalíticas mais extensas da Península Ibérica;
  • Foral de D. Afonso Henriques; o último de D. Manuel (1513);
  • Castelo de Castro Laboreiro, fortaleza anterior à nacionalidade;
  • Organização territorial única em Portugal de Brandas e Inverneiras;
  • Pelourinho Manuelino; construção em 1560;
  • Pontes medievais; várias românicas;
  • Extenso património comunitário e religioso;
  • Tratados de Limites, e Marcos da fronteira portuguesa-espanhola, do 2 ao 53;

Uma raça tem sempre um questão cultural escondida, em última instância o património definido pelos animais conta sempre a história de uma região. É o caso do Cão de Castro Laboreiro. É um produto cultural de uma população numerosa de montanha, agropastoril e comunitária, suportada por séculos de emigração masculina para Espanha, Trás os Montes e Beiras.

O tipo de utilização e a geografia isolada e agreste de Castro Laboreiro foram decisivos para estes cães fixarem características de forma natural e apurarem uma identidade fenotípica de grande pureza racial, muito singular, em comparação com as outras raças ibéricas de tronco comum.

Para termos uma raça, em condições naturais, têm de haver muitos cães do mesmo tipo, consanguinidade constante durante décadas, gestão dos sangues novos introduzidos voluntariamente e, essencialmente isolamento. Da seleção empírica, condicionada pelo meio envolvente, resulta a uniformização possível dos animais em consequência da fixação de características que podem ser identificadoras de uma raça - diferenciada das conhecidas.

Este animal devido às suas funções, sempre foi reputado e valorizado. Vários testemunhos orais e escritos, ao longo dos últimos séculos, referem que os Crastejos, vendiam e ofereciam cães com estimado valor, como companhia e guarda para muitas quintas do Minho. Fora do seu Solar foi quase sempre animal de estimação e guarda de gente remediada ou letrada: proprietários de quintas, comerciantes, professores, padres, médicos e advogados.